Em algum momento misturei delicadeza e crueldade. Só não sei bem em que rua virei e não voltei mais e estou sempre à sombra de tentar um equilíbrio entre eles e não consigo. Me sento na beira da cama e imagino que ela, aquela outra parte de mim, se senta ao meu lado pra conversar. Não faço perguntas, sequer consigo olhar nos olhos dela. Existe uma hostilidade em seu olhar que não me dá coragem pra encarar. Ainda não entendo bem se é por ser uma parte intensa e inconclusiva de mim. Não a ignoro, mas temo seu sermão. Palavras vindas daquela face que me espelha, daqueles lábios que me representam, daquele sorriso irônico que é uma parte minha, irracionalmente racional.
O que me apavora - eu, a mais infantil e limitada que aquela outra, sentada à minha frente, despreza - é que eu, a frágil, ainda me importe com a força. É um encontro entre o futuro e o passado em constante contradição no dia a dia. Nós jogamos. Ela me engana, eu a ultrapasso. Ela vai ao fundo, eu fico na superfície. Ela cuida quando lhe convém e ignora ao perceber-se idiota; eu simplesmente me calo. Me calo quando o silêncio é necessário e me calo quando o silêncio é uma fuga, a única saída. Então, o que me apavora, é que eu me importe com ela, aquela outra e tudo que ela irá dizer ao me ouvir, ou simplesmente sentir o que eu lhe passo com uma voz que não sei controlar, mas que bate forte aqui dentro. O que me apavora é que sou demais pra uma mesma de mim e não me aguento sem transbordar pra ela. A odeio, mas necessito dela. Poderia dizer aqui, poderia gritar que quero ser livre desta obrigação e mandar a ditadura da minha vida - que esta mesma impõe e eu permito - pro espaço. Mas qual espaço que não sou no espaço do universo que conheço? Sou muito, demais, e não me aguento e nem me divido comigo mesma. Esta outra entende aquilo, mas inverte meus pontos, faz minhas reticências virarem rabiscos mal produzidos e atreve-se a um livro. Enquanto eu pego tudo de mim e tento transformar em música. As palavras me escapam, as palavras perturbam o sono daquela que precisa estar aqui e ser carrasca quando me falta um elo de ligação entre mim e o mundo.
Penso se realmente quero este elo de ligação, diariamente me respondo que não, mas não sei se é possível viver sem ele. Me afasto o máximo que posso do elo que me une ao que odeio, sobrevivo na selva e minha mente flutua em mundos que, se não inventei, existe realmente uma alma complicada e um mundo frio de fervor interno espalhado por aí.
Somos um caso de amor, na sua forma mais vulgar de ser. Ela me olha com expectativas sufocantes, me seduz com suas palavras deprimidas, congestiona meus dias de sorrisos e alienações que eu suporto. Ela me cobra que eu seja o que ela é, mas não é. Ela quer me ser e eu não sou. É a confusão disso que faz nosso amor prevalecer. É a confusão dos que se matam, mutilam, arrancam pedaços do ser amado como prova de amor. É a confusão dos que se amam olhando apenas para o ódio que sentem naquelas manhãs frias de mau humor em que não queremos ver ninguém, e enxergam neste ódio um sentimento indeciso que nomeiam amor. Não percebem, portanto, que o ódio existente ali era só uma motivação natural para que se diferencie as mazelas úteis e inúteis da vida. E odiar quem ama é essencial. Ao confundir este ódio com amor, o egoísmo assume a frente e culpa o amor por sua mesquinhez. Posso chamar o amor de algo mais delicadamente cruel que amor vulgar? Este é o nosso amor, meu e dela. Nos odiamos, de fato, mas uma dependência infeliz, destrutiva, inconsequente e desesperada faz com que nós duas não consigamos dizer adeus. Um dia nos amamos de verdade, mas este dia não existiu pra nós. Passou sem que soubessemos que aquilo era amor, e pisamos no que poderia ter sido por realmente não sabermos nada sobre como dar dignidade ao amor se tudo nele parece sujo.
Então, resta dar as mãos, viver dentro do vidro, fingir que vôo quando ela se cansa de mim e vai pra outra direção. Resta dizer que, aqui sentada em sua frente, a odeio por tudo que significa; mas quando se vai a amo por não saber como existir sem sua inteligência interpessoal.
Quando ficarei livre dela? Quando o limite, a cota de tolerância esgotar e eu disser um "foda-se" bem grande pro mundo. Quero te contar sobre os sonhos que tive enquanto ela falava sobre gritos, dor e soluços... ela sabia do que estava falando e também te convenceria...