quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

.pouca razão

Fechei minha janela e só abro em casos de chuva. Porque gosto da tempestade, depois de observar as gotas oscilando entre força e fraqueza batendo no vidro. Sinto uma calma que nenhuma palavra me dá e ultimamente nem os abraços apertados. Abraços que não existem aqui. Por que eu deveria ter uma razão pra chorar, me sentir só, contar os grão, escrever ou mentir? Nem sempre se faz o melhor, às vezes faz-se só o que... dá.

Não preciso entender porque paro no meio de um texto sobre alguma estatística, encosto na parede e fecho os olhos sentindo o gelo aliviador do muro branco ao meu lado.
Não preciso entender porque dou uma gargalhada quando alguém que deveria aparecer não aparece, como se esnobasse.
Não preciso entender os meus disfarces e nem quero encontrar palavras capazes de me conduzir a mim. Me decepcionaria se fosse tão simples.
Não preciso entender porque a noite sempre me entende mais que qualquer pessoa.

Porque eu sonhei esta noite. Era tudo o que eu queria, mas odiei, joguei pela porta todo meu sonho. Era uma mentira.

Continua chovendo na janela. Continua sendo difícil entender. Continuo tentando acreditar no que não acredito. Continuo desmanchando um porto seguro que eu havia construído. Continua pequeno demais considerar uma grandeza nisso.

Não aceito a chuva. Ela é apenas uma mentira de tudo que está aqui. Mentiras que chovem em mim, adormecidas por minhas lágrimas. Mentiras.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A tristeza não nasce em mim. Há uma superfície externa que a cria. Há uma insatisfação referente ao meio. Circulo, não me encontro, dou voltas em torno de mim mesma e na minha bagunça acho um ponto que apesar de tortuoso me inspira e me acalma. A contradição que me persegue e eu a amo. Um dia a busca pela perfeição cansa e suaviza os monstros enfeitar a delicadeza interessante do imperfeito.
O mundo sempre atrapalha que terminemos o que começamos.
Pequenos detalhes, dúbia visão.
Interprete os traços, evite o desenho.
Não seja tão rápido pra concluir as cores e o todo.
Divague um pouco mais e não se apresse em fazer sentido.
Não julgue, atenta-se à lição apenas.
Não é preciso solicitar tradução.
Ninguém traduz o fim e as diferenças se não souber o ângulo.
Há uma matemática poética em cada um.
Ninguém precisa aceitar se compreender que qualquer que seja a conclusão, nunca é o bastante.
As ofensas transbordantes em lágrimas, o sim fácil e o não seco, sem recapítulos.
Que chato ser tão óbvio! Tente mais.
Os padrões me cansam.
Sensação. Mal estar. Me excluindo, oprimida. Me evitando, ressentida. A lembrança de que sou eu e eu. Nada mais resiste. Meus sentidos do lado de fora, terminam. Receio as formas e num suspiro decadente volto para o mundo solitário que me acolhe tão adoravelmente.
Estou enlouquecendo. Aqui fora tudo parece estranho, vozes ecoam sem ter o que dizer; mas dizem me atropelando. Ruídos e um vulto, um vulto sinistro e gélido me toca somente, somente, somente. Somente me encanta, me encanta pelo pavor. Pavor...
As escadas que subo me degradam diante dos que me julgam. Sou cada vez mais pequena para os outros, e igualmente mais grandiosa pra mim.
O piano me convida e diz quase em silêncio, em tom de dedicação que sou apenas uma vaga lembranças, um sentimento, uma parte oculta da desistência do mundo em me cansar de sonhar. Sonho que sou além. E só por isso, sou!
Barulho, soluços. É o sofrimento que bateu, ficou e foi!
O sopro gritante que corta o abismo das dores soterradas que tranquei veio me afrontar e dissimulei um eco que não dizia nada além do que precisava.
Se encaixar dou um preço que reze seu destino. Una-me assim.

entendimento.

Eu não sou um conceito. Não tente me obrigar ao que não quero. Desconstruir meus sonhos para tentar provar o que não pretendo. Quero quebrar estas regras tolas que vomitam a cada instante, mas não é que eu faça questão de te mostrar. Não vou discutir suas minorias se elas, mesmo que desprezíveis, assim te fazem melhor. As palavras quase ocas que discursa sem cessar e simplesmente inventa que venceu sua meta. Objetivamente, onde é que você quer chegar?

domingo, 6 de dezembro de 2009

/acidez

Em algum momento misturei delicadeza e crueldade. Só não sei bem em que rua virei e não voltei mais e estou sempre à sombra de tentar um equilíbrio entre eles e não consigo. Me sento na beira da cama e imagino que ela, aquela outra parte de mim, se senta ao meu lado pra conversar. Não faço perguntas, sequer consigo olhar nos olhos dela. Existe uma hostilidade em seu olhar que não me dá coragem pra encarar. Ainda não entendo bem se é por ser uma parte intensa e inconclusiva de mim. Não a ignoro, mas temo seu sermão. Palavras vindas daquela face que me espelha, daqueles lábios que me representam, daquele sorriso irônico que é uma parte minha, irracionalmente racional.

O que me apavora - eu, a mais infantil e limitada que aquela outra, sentada à minha frente, despreza - é que eu, a frágil, ainda me importe com a força. É um encontro entre o futuro e o passado em constante contradição no dia a dia. Nós jogamos. Ela me engana, eu a ultrapasso. Ela vai ao fundo, eu fico na superfície. Ela cuida quando lhe convém e ignora ao perceber-se idiota; eu simplesmente me calo. Me calo quando o silêncio é necessário e me calo quando o silêncio é uma fuga, a única saída. Então, o que me apavora, é que eu me importe com ela, aquela outra e tudo que ela irá dizer ao me ouvir, ou simplesmente sentir o que eu lhe passo com uma voz que não sei controlar, mas que bate forte aqui dentro. O que me apavora é que sou demais pra uma mesma de mim e não me aguento sem transbordar pra ela. A odeio, mas necessito dela. Poderia dizer aqui, poderia gritar que quero ser livre desta obrigação e mandar a ditadura da minha vida - que esta mesma impõe e eu permito - pro espaço. Mas qual espaço que não sou no espaço do universo que conheço? Sou muito, demais, e não me aguento e nem me divido comigo mesma. Esta outra entende aquilo, mas inverte meus pontos, faz minhas reticências virarem rabiscos mal produzidos e atreve-se a um livro. Enquanto eu pego tudo de mim e tento transformar em música. As palavras me escapam, as palavras perturbam o sono daquela que precisa estar aqui e ser carrasca quando me falta um elo de ligação entre mim e o mundo.

Penso se realmente quero este elo de ligação, diariamente me respondo que não, mas não sei se é possível viver sem ele. Me afasto o máximo que posso do elo que me une ao que odeio, sobrevivo na selva e minha mente flutua em mundos que, se não inventei, existe realmente uma alma complicada e um mundo frio de fervor interno espalhado por aí.

Somos um caso de amor, na sua forma mais vulgar de ser. Ela me olha com expectativas sufocantes, me seduz com suas palavras deprimidas, congestiona meus dias de sorrisos e alienações que eu suporto. Ela me cobra que eu seja o que ela é, mas não é. Ela quer me ser e eu não sou. É a confusão disso que faz nosso amor prevalecer. É a confusão dos que se matam, mutilam, arrancam pedaços do ser amado como prova de amor. É a confusão dos que se amam olhando apenas para o ódio que sentem naquelas manhãs frias de mau humor em que não queremos ver ninguém, e enxergam neste ódio um sentimento indeciso que nomeiam amor. Não percebem, portanto, que o ódio existente ali era só uma motivação natural para que se diferencie as mazelas úteis e inúteis da vida. E odiar quem ama é essencial. Ao confundir este ódio com amor, o egoísmo assume a frente e culpa o amor por sua mesquinhez. Posso chamar o amor de algo mais delicadamente cruel que amor vulgar? Este é o nosso amor, meu e dela. Nos odiamos, de fato, mas uma dependência infeliz, destrutiva, inconsequente e desesperada faz com que nós duas não consigamos dizer adeus. Um dia nos amamos de verdade, mas este dia não existiu pra nós. Passou sem que soubessemos que aquilo era amor, e pisamos no que poderia ter sido por realmente não sabermos nada sobre como dar dignidade ao amor se tudo nele parece sujo.

Então, resta dar as mãos, viver dentro do vidro, fingir que vôo quando ela se cansa de mim e vai pra outra direção. Resta dizer que, aqui sentada em sua frente, a odeio por tudo que significa; mas quando se vai a amo por não saber como existir sem sua inteligência interpessoal.

Quando ficarei livre dela? Quando o limite, a cota de tolerância esgotar e eu disser um "foda-se" bem grande pro mundo. Quero te contar sobre os sonhos que tive enquanto ela falava sobre gritos, dor e soluços... ela sabia do que estava falando e também te convenceria...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

/ideologia

Sempre foi muito confuso pra mim estabelecer um ponto de partida e chegada. Fácil compreender esta confusão quando se pensa com uma cabeça igual a minha. Não dá tempo de esperar o fim. São tantas terras pra encontrar por aí que o processo todo me limita de outras coisas que me chamam, me procuram e clamam pela minha solução.

A palavra que está me definindo é "desconstrução". Enquanto Chico chamava a "Contrução" eu chamo a "Desconstrução". Enquanto Cazuza observava a tudo de cima do muro, eu vejo tudo da mesa do bar. E Thom musicou lindamente seu desencontro o que sempre repeti a vida inteira: "(...) What the hell am I doing here? I don't belong here(...)" Buk suportava tudo isso nas calçadas mundanas e sujas amando a literatura e entendendo a filosofia do imperfeito. Recorro aos meus amores pra explicar meus próprios amores.

Estou descontruindo minhas "mini-certezas" porque as perdi totalmente. Deconstruir todo meu conceito de sociedade e ser humano. Mas a alma continua com a mesma vibração louca e desesperada.

Uma necessidade de matar um conceito me afastando de tudo. Os dias estão contados, o fim próximo e a morte é certa!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

me repetindo.

O tempo e espaço da realidade se conflitam com o meu espaço, o meu tempo. Saio pela rua descompassada, em busca de nada e se quero dizer a eles que descobri algo novo que pode mudar o mundo, não me ouvem, não me enxergam. Estou explodindo, preciso chorar e borro os meus olhos em sal de lágrimas e preto da maquiagem. Me descontrolo e chuto o ar das ruas desertas, mas eles me acham. Me fotografam e noticiam minha fúria. Um texto superficial com palavras que condenam me pinta de triste e animalesca. Louca sei que sou. Mas como triste? Eu estou feliz. Estava apenas sendo eu, chorando a fúria e os excessos de uma insatisfação pessoal que não compreendo, mas que me mantém viva. Minha noção de felicidade entrelaçada com o desejo de enviar um "foda-se" pro mundo. Ainda há alguma pessoa dentro de mim que tenta se adaptar e se importa com tudo isso que é só bobagem. Estas vozes estão me deixando surda. Não quero mais viver isso que está aqui, nem fazer parte disso. Não quero estar entre eles e fingir ser igual ou me declarar um câncer. Será que o mundo se dá conta do mal que me faz? Calem estas vozes que estão me enlouquecendo! Quero o silêncio e só o ruído desta canção. Que o meu barulho possa ser mais forte que as ameaças deles. Diminuir o ritmo e ser só do tempo e espaço que minha loucura atinja. Preciso fechar os olhos na canção que está tocando, mergulhar em seus acordes e notas e sentir. Só sentir. Sem precisar definir o sentimento. Sem fingir uma vida desnecessária. Em nome de que eu deveria sacrificar toda esta imensidão que tenho dentro de mim, que não adiantaria explicar a quem não sente e a explicação quebraria toda a nobreza do que sei que sou e pra sempre? Me agrada que nada disso tem valor porque poderia corromper a honestidade das minhas paixões. Se eles não quisessem também destruir o balão que soltei no ar pra conhecer o céu, eu não estaria tão entediada e tensa com toda esta droga. Danço num ritmo por não ser pornográfica. Talvez tenha uma pitada de perversão que a alma escandaliza nos olhos ao interpretar; mas eles julgam estupidamente. Um moralismo deliberado que define minha intensidade como pornografia. Sou uma vadia por contar minhas filosofias escolhidas por embriaguez. Ao menos é um rótulo de culpado e na desonestidade me sinto mais em paz que a santificação. Vou desmenti-los em um pronunciamento: na verdade, me prostituo a cada vez que me contenho e me calo pra evitar desprazeres e o caos. Meu maior crime, pois, como negar o caos e virar as costas ao amor pelo imperfeito se sou o próprio caos e amo o que não é belo? Eles continuam falando alto e sussurrando mantras que me desconcentram e interrompem. Lhes digo: com vocês aprendo a fingir, percebem?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

/referências

Quantos pecados me resta pra cometer? Quero todos, ao mesmo tempo, agora! Não importa, nunca importou se eu não sou o que as pessoas querem. Aceito a apatia, mas se não me ouvem até o fim sequer, como querem uma verdade sobre mim que são incapazes de ver? Só o que incomoda um pouquinho é que julguem apenas por prazer. O que fica da experiência do julgamento que não o sentimentalismo bobo da inveja?

Me subestimo, eu sei. Tanto quanto me superestimo. Ninguém é capaz de perceber quando sou o avesso de mim, quando sou a própria dúvida, a indignação. Se eu pudesse me esforçar pra ser cada vez menos o que o mundo espera, juro pelo rock que me esforçaria! A questão é: sou uma pessoa que não sabe não ser uma pessoa e acho que todo mundo está phd em não ser. A questão é: não consigo não obedecer aos meus instintos, paixões, amores inúteis, esperanças contidas. A questão é: eu já existo, e não faria da minha existência uma homenagem aos desafetos dos outros. Existir é um tempo muito curto, sabe? Existir passa tão rápido, é tão frágil, complexo, e ao mesmo tempo, duvidoso. Existir é passageiro. Uma distância. Quase um caminho sem volta que não vai na velocidade que desejamos, nem segue a rota planejada. Existir é limitado que de tão pequeno se faz grande. Exitir compensa, pensar sobre isso, não.

A resposta pra pergunta: "quem você é?" sempre foi extensa demais pra que as pessoas pudessem suportar. A resposta sempre foi: "eu sou!" A simplicidade que se esconde nesta complexa humildade de ser já não serve pro mundo.

Qualquer pessoa pode me irritar, basta simplesmente falar alguma bobagem sobre algum amor que eu tenha guardado no íntimo. Qualquer um pode me conquistar, basta ser sincero e desejar profundo e ser capaz de sacudir o mundo. Sou o extremo, o contraditório, o inverso, o caos, o intenso, o que quando chora molha toda a face sem mover qualquer músculo. Entende? A lágrima solitária num rosto aparentemente sóbrio. A ordem aparente que de tão caótica é completamente desordenada. Uma lágrima apenas para todo universo de mundo bagunçado que se apodera de mim, e o rosto expressando apenas a passagem de um momento.

Não contenho o que habita em mim de tão imenso que me parece invadir a alma. Quando choro, quando escrevo, não é por achar que isso seja arte. Escrever, pra mim, não passa de um transbordar de sentimentos que não cabem mais em mim. Chorar, pra mim, não passa de um transbordar de chuva que tempestiva aqui dentro. Não é preciso entender se fico pelos cantos escrevendo ou chorando. Não é preciso entender estes instantes de recolhimento e quietude em que estou mergulhada no meu pranto. Minha lágrimas e as palavras me libertam na hora, no exato minuto em que coloco-me pra fora, e assim eu fico leve.

- Tenho gavetas silenciosas em meu peito que parem universos quando estou tempestade.

domingo, 22 de novembro de 2009

summer's gone

Não me faça chorar se não pode suportar minhas lágrimas. Seu senso de sinceridade é engraçado e não quer chegar até o fim. Você só suporta o que pode ser tocado pela sua segura satisfação pessoal. Pare de fingir aceitar meus infernos e querer curar dores que jamais poderia. Invente uma canção de notas falsas, mas não me peça pra não dançar. A sua responsabilidade em divulgá-la ao mundo deve considerar que assim acaba com vidas que não são inteiras. As crianças continuam brincando nas calçadas, mas os gritos eu não ouço mais. Não tape seus sentidos, deixe-as falar sobre seu passado que te envergonha. Eu posso suportar. Eu posso suportar qualquer coisa que você deixar. Minha fraqueza está no ritmo desta canção que você oculta. Não afaste de mim o que é belo e você julga me destruir. Não afaste de mim o mundo que eu sei tocar. Não afaste de mim as dores que me atingem a alma. Não afaste de mim o que ainda me dá alento de existir e poder partilhar deste misterioso som sem passos, que vai pra lugar nenhum. Não afaste de mim as palavras e sua face encardida. Não afaste de mim o tapete sujo. Não, eu não quero pisar. Guardar na minha coleção de coisas rejeitadas, talvez. Quero correr sobre estes campos verdes até que eles sequem e só reste a morte. Quero sentir o que sobrou depois que tudo for e eu ficar eternamente só. Porque esta parte de mim que passou pela estrada pedindo carona não deve durar. Um beijo delicado me assusta. A paixão tá escondida, só te basta captar. O amor... o amor está abandonado pelo tempo e escravizado pelos vícios. Vítima de uma falsa idéia de cumplicidade. Pinte as ruas sem usar cores porque o mundo não merece a beleza mentirosa da felicidade inventada que envenena os que preferem somente caminhar na areia molhada visitada pelas águas do mar. A traição está em todos os vestígios do que parece real e mostra-se um sonho - seja por falta, seja por excesso. Queime todas as provas de que você existiu se isso te envergonha. Nunca mais nasça outra vez se isso te deprime. Entenda apenas que o muro que nos cerca te mata cada vez mais do que é e divide a palavra secreta com o silêncio secreto que você insiste em dizer. A palavra amarga, experimente: solidão, sente?